Escalando na Europa por Vini Todero

 

 

A idéia de fazer uma viagem à Europa para escalar fazia parte de meus planos desde 2002 quando ingressei na faculdade. Finalmente em setembro de 2007, mais precisamente dia 21, logo após minha formatura embarquei para a Espanha, para cinco meses de muita escalada. Nesta pequena matéria irei apresentar algumas informações referentes à escalada em diversos setores europeus e um setor no continente africano.

1º mês
Desembarquei em Madrid num sábado à noite, no domingo, para minha surpresa, encontrei diversas lojas de escalada abertas e parti às compras de equipamentos. Na segunda-feira após alguns transtornos em relação ao transporte, cheguei ao primeiro setor da viagem, que no meu ponto de vista é o melhor dos que tive a oportunidade de escalar.

Rodellar – Como este é um dos setores mais conhecidos do mundo dispensarei descrições, só irei salientar que em menos de 1 km de cânion tem mais oitavos graus franceses que no Brasil inteiro. Alguns deles com mais de 40m de altura e com inclinação média de 40º, onde abundam as chorreiras e as agarras grandes.
Permaneci cerca de 25 dias neste setor, onde tive a companhia de diversos amigos brasileiros e conheci outros tantos argentinos, poloneses, alemães, ingleses, japoneses, mexicanos, etc. e por incrível que pareça nem um espanhol.
Em relação à escalada deste setor posso dizer que é em sua maioria de continuidade. Dificilmente encontra-se uma via com um crux cabuloso, e facilmente se cai das vias estando com as duas mãos em agarrões.
A época do ano em que estive em Rodellar não é a mais recomendada em função do clima, que se torna mais chuvoso a partir do fim de setembro. Porém em 2007 o clima estava perfeito, e o melhor é que fora de temporada o setor não estava muito cheio, assim não precisávamos ficar esperando para entrar nas vias mais clássicas, fato que só ocorreu em alguns finais de semana.

2º mês
Depois de Rodellar e uma rápida passada por Barcelona partimos para Marsseile, que é uma cidade costeira no Sul da França, onde se encontra um setor chamado Les Calanques e a partir de onde se pode desfrutar de um dos pores-do-sol mais belos do mundo.

Les Calanques – Este setor possui 13 km de paredes e falésias próximas ao mar e apresenta mais de 3000 vias de 2b e 9a francês, isso mesmo, 2b. No livro croqui do setor existem vias deste grau, tentei sem sucesso entender como se gradua um 2b, mas tudo bem, além do mais, estas vias são super bem protegidas com grampos químicos bastante próximos uns dos outros. Talvez por isso na França a escalada seja um dos esportes nacionais praticados por muitos.
Para quem nunca ouviu falar de Les Calanques pode assistir o filme Master of Stone III, onde o americano Ron Kauk, escala em Les gudes, um dos tantos setores de Les Calanques. Em uma determinada parte do vídeo ele fala “the rock is like gold” se referindo a rocha de Les calanques, um calcário macio e aderente, a não ser quando o Mistral, um vento típico desta parte do Mediterrâneo, sopra com violência, trazendo a maresia até as paredes de escalada.
Atualmente este setor não esta mais na moda entre os escaladores, mas sua importância para a escalada francesa é inegável, visto que foi onde se iniciou, neste país, a escalada em rocha. Tive a oportunidade de escalar vias de 6c francês de 1942 e existem outras ainda mais antigas. Outro fator importante deste local é que foi onde Elie Chevieux encadenou o primeiro 8b+ (10c BR) a vista no mundo em 1995, que foi a via Massey Ferguson.
Na França permaneci por aproximadamente 25 dias, na casa de um amigo francês que vivia a 20 minutos de caminhada de um dos melhores setores de Calanques. Durante este período tive a oportunidade de ir à outros setores da França como Gorge du Tarn, Gorge La Jonte, e Bioux. Também voltei a Espanha por 4 dias, com amigos franceses e conheci outros dois bons setores do norte da Espanha: Sadernes e Montgrony. Estes dois setores estão localizados próximos aos Pirineos, e apresentam um visual incrível, principalmente no outono, que foi a época que os visitei.

Gorge du Tarn – Localizado próximo à cidade de Millau, famosa pelo Ptzel Rock Trip, este setor de calcário avermelhado é conhecido por suas vias esportivas bastante altas, escalei algumas com cerca de 60 metros.

Gorge la Jonte – Um dos piores setores que já escalei, a rocha é completamente podre e suja, começamos a escalar 3 vias e desistimos das 3 antes da metade. Não recomendo.

Bioux – Setor famoso na década de 80, onde foi encadenado o primeiro 8a+, feminino com a via Chouca, que também aparece no vídeo Master of Stone III. É outro setor bastante importante na história da evolução da escalada francesa, apresenta vias extremamente difíceis e técnicas em paredes verticais com bidedos abaloados.

Sadernes - Escalei apenas 2 dias neste setor, que apresenta cerca de 300 vias de todos os graus. Não é um área muito interessante, ao menos os setores que conheci, mas vale uma passada se estiver por perto.

Montgrony - Esta área de escalada foi uma das mais agradáveis que conheci, além do visual deslumbrante, é calma e apresenta ótimas vias em chorreiras, com destaque para a via Aromas de Montgrony, 8a+ (10a BR), que se não fosse as três primeiras agarras de resina (fato observado com certa freqüência na europa), seria uma via perfeita, com duas chorreiras paralelas na primeira parte, e em seguida uma chorreira única até o fim da via.

Após alguns dias na Espanha voltei para Marseille, onde permaneci por mais uns 10 dias e logo voltei a Barcelona, onde pude escalar por dois dias em Montserrat.

Montserrat – É uma área de escalada gigantesca, muito próxima de Barcelona, cerca de 40 km, que apresenta uma quantidade enorme de vias, na suas grandes maiorias verticais, tanto tradicionais como esportivas em um conglomerado cheio de buracos. Este conjunto de montanhas é motivo de orgulho para os habitantes de Barcelona e região e fica cheio de escaladores e excursionistas durante os finais de semana. As vias esportivas são em geral de continuidade e técnicas.

3º mês
Saindo de Barcelona rumei para Siurana, onde pretendia ficar apenas alguns dias e logo rumar para o sul da Espanha, mas mudei de idéia e permaneci quase 1 mês nesta região em função do bom ambiente e grande quantidade de vias de qualidade. Fiquei instalado na casa de uns amigos Argentinos fanáticos por escalada, com quem escalei muito. Durante este tempo escalei em 3 áreas distintas, são elas: Siurana, Montsant, Margalef. Além de fazer alguns boulders e Cogul. A primeira muito famosa com rocha calcaria, e as demais conglomerado de alta qualidade.

Siurana – Assim como Rodellar, Siurana dispensa apresentações. No tempo que estive na região escalei relativamente pouco em Siurana, pois a estrada de acesso estava fechada para reforma durante os dias de semana. Mesmo assim escalei diversas vias, nos setores mais expostos ao sol, pois nesta época já faz um pouco de frio na região. A maioria das vias são verticais ou levemente negativas de regletes, mas também se encontram chorreiras, buracos e fissuras. Inclusive a primeira parte de La rambla, (9a+ 12b BR) mítica e polêmica via de Siurana, é uma fissura, o que torna este trecho da via bastante feio (nada contra fissuras) do ponto de vista da escalada esportiva.

Montsant – Esta zona de escalada encontra-se bastante próximo a Siurana e apresenta uma grande quantidade de vias de continuidade. Escalei em apenas um setor desta zona chamado Racoll, que apresenta vias bastante longas, algumas com cerca de 60m, e onde já rolaram algumas cadenas, à vista, bastante famosas como o primeiro 8b+ (10c BR) feminino, realizada por Josune, na via Hidrofobia.

Margalef – É a zona de escalada menos conhecida das três onde estive nesta região, nem por isso de menor qualidade. A rocha, como dito anteriormente, é o conglomerado, mas em diversas vias existem chorreiras calcárias muito interessantes. A maioria das vias é de força e resistência, mas também existem vias bastante boulderísticas, como o 8c, (11a BR), repetido recentemente em solo pelo Inglês Dave MacLeod. Recomento muito conhecer este setor para quem estiver de passagem pela região de Siurana.

Cogul – Foi uma das poucas zonas de boulder que conheci nesta viagem. Apresenta boulders muito legais em arenito. Recentemente foi realizada uma edição do X-tones nesta zona, onde estivera presentes diversos escaladores de renome.

4º e 5º meses
Os dois últimos meses de viagem foram destinados em sua maior parte ao turismo, mas como ninguém é de ferro e como um fanático escalador, os destinos escolhidos, em sua maioria apresentavam locais para escalar.
No final de dezembro encontrei minha namorada em Madrid e partimos para o sul da Espanha, após 3 dias de turismo, partimos para El Chorro, próximo a cidade de Málaga.

El Chorro - Chegamos neste setor no dia de Natal, nesta época o setor fica lotado de escaladores dos países mais frios da Europa. Permanecemos cerca de 10 dias nesta zona, 5 deles próximo ao setor Poema Roca, e depois do ano novo, que é bastante animado no refugio de El Chorro, escapamos do tumulto e fomos para o setor Maquinodromo, onde estão as melhores vias. A maioria das vias esportivas são de resistência e com muitas chorreiras, porém muitas destas vias encontram-se polidas, ou seja, as agarras, das vias mais freqüentadas, perdem sua textura natural tornando-se bastante lisas. Este problema está se agravando cada vez mais com a popularização do esporte. Inclusive em Rodellar que é um setor mais novo que El Chorro, já existe vias extremamente polidas.

Após El Chorro, resolvemos ir para o Marrocos, inclusive para tentar renovar o meu visto de turista, pois eu já estava ilegal. Neste país permanecemos 8 dias, dos quais dois em Gorge du Todra.

Gorge du Todra - Este local é um Cânion gigantesco com cerca de 13km de comprimento e paredes de até 150m de altura. A rocha é calcário, porém bastante diferente do encontrado na maioria dos setores europeus. A escalada começou a se desenvolver no Marrocos a cerca de 15 anos com a abertura das primeiras vias por Espanhóis. Existem muitas vias, na sua maioria de 2 ou 3 cordadas, e alguns setores esportivos. A comunidade escaladora local, assim como grande parte das pessoas que lidam com turistas no Marrocos, parecem bastante receptivos, até o ponto que você não compra o que eles tem para vender, ai eles mudam e muitas vezes você se sete intimidado a comprar, para evitar problemas. Foi o que aconteceu quando me senti intimidado a comprar um livro guia do local, na verdade era um monte de folhas de oficio xerocadas com os croquis feita a mão, o problema não seria este, o problema era o valor, 20 euros. Que consegui comprar após muito tempo de negociação por €15.
Escalei apenas 2 dias neste setor, mas já foram suficientes. Uma viagem somente com o intuito de escalar neste setor não é muito interessante, visto que o setor não apresenta vias muito boas (pelo menos as que escalei), porém vale a pena conhecer este país em função de sua cultura e outras belezas naturais.

Depois do Marrocos partimos diretamente para Barcelona onde tive a oportunidade de voltar a Montserrat por um dia. Na seqüência partimos para a França onde escalei alguns dias em Les Calanques. Por fim partimos para a Itália, onde escalei na região de Arco por cerca de 4 dias.

Arco – Esta zona de escalada é uma das mais famosas da Itália. Escalei em apenas um setor desta zona chamado Masoni, onde se encontra a famosa via Undergraund, 8c+/9a (11b/11c BR). Este setor de calcário macio possui vias de resistência, na sua maioria negativas com agarras grandes e chorreiras. O visual do local também é belo, valendo a pena um passeio pela cidade de Arco, e por suas lojas de escalada, cerca de 5, em uma cidade que eu acredito que não tenha mais de 15.000 habitantes, e o melhor é que estas lojas apresentam uma grande variedade de marcas e modelos e são mais baratas que as demais que visitei na Europa.

Agora de volta ao Brasil e com a motivação a mil, estou em busca de novas vias para conquistar e novos setores para explorar, quem sabe assim, podendo ajudar a colocar o Brasil de forma mais sólida no cenário da escalada esportiva mundial. Tendo não somente vias de graus elevados, mas também um grande numero de vias de base para que a evolução dos escaladores brasileiros, principalmente das futuras gerações, possa ser mais sólida e rápida.

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