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Neyton
Reis tem 44 anos de idade, Gaúcho, natural de Porto Alegre é proprietário da
Montanha Equipamentos nesta cidade. Pioneiro ativo no comércio de
equipamentos de montanhismo no estado do Rio Grande do Sul é navegador e
chefe de equipe de balonismo tricampeão brasileiro tendo participado em três
campeonatos mundiais como representante do Brasil na maior equipe de
balonismo já formada em toda a América do Sul, em viagens pelo Japão, Áustria
e Alemanha. É socorrista de montanha formado pelo COSMO – PR, Bombeiro
voluntário e Monitor da FFS (Federação Francesa de Espeleologia e Canionismo). Registra
também em seu histórico 50 cursos de técnicas verticais lecionados na
Escola de Bombeiros do Estado, e 12 cursos de canionismo nos cânions de
Aparados da Serra e Serra Geral. Participou como instrutor na formação de
bombeiros de resgate de mais de 25 nacionalidades diferentes em três cursos
internacionais de resgate e primeiros socorros através da escola de bombeiros
do estado em parceria com o governo Japonês. Em sua trajetória contam-se
mais de 280 incursões a cânions seja conduzindo grupos, realizando busca, e
resgates ou em conquistas como a do Josafáz (Aratinga), mais extenso cânion
do estado (14.900 metros de extensão), paredes e acessos como as do cânion
Amola faca, Boa Vista e Montenegro (em São José dos Ausentes) e Índios e
Malacara (Cambará do Sul), entre outros.
AGM: Há quanto tempo você está envolvido com o montanhismo?
NR: Estou envolvido com o montanhismo, ou com as atividades de
montanhismo, desde a infância, andando pra cima e pra baixo nas áreas e
pedreiras do Lamí , Itapuâ e Canta Galo, imediações de Viamão, aqui mesmo no
RS. Um grande amigo e companheiro nestas indiadas era o Àtila Portal, que é
meio brother de criação e que vivia enfiado no meio do mato, isto já quando
tínhamos cinco ou seis anos de idade.
Depois vieram o Morro do Chapéu em Sapucaia já numa estória de buscar a
escalada, também o Itacolomí, Pudim, Iêie em Montenegro, Caçapava e até
mesmo a pedreira do Asmuz,, aquele enorme buraco que se vê atrás do campus da
UFRGS ,no morro Santana, onde já não se pode mais ir em função das broncas da
maleza humana.
O João Giachim, os Cony, Edgar Kitelmann, foram pessoas muito especiais
e importantes no meu ingresso na atividade de escalada, amigos que cultivo
até hoje apesar da distância.
AGM: O que o motivou a engajar-se num esporte tão pouco conhecido na época? E
o interesse pelo canionismo?
NR:
Minha
motivação foi natural para que eu continuasse e buscasse aprimoramento de
técnicas e equipamentos. Bastou colocar os pés dentro do Itaimbézinho que as
coisas começaram a passar na minha cabeça diariamente, trazendo sempre a
vontade de voltar. O lugar é lindíssimo e depois de passar por ele você nunca
mais esquece, e, como o Àtila mesmo diz, quem bebe da água de lá sempre
volta.
A exuberância da natureza,
da fauna, dos elementos da flora e da geologia foram impressionantes para
mim. Era diferente de tudo o que eu já havia visto.
As Gunneras eram gigantesgas, plantas Jurássicas que se desenvolvem nas
bordas e no interior dos cânions chegando a ter folhas de 2 metros de eixo,
o que bastava para que pudéssemos descansar abrigados da chuva ou sol em
alguns momentos. Outra, eram as paredes, tão grandes que dava prá pensar em
colocar uns 200 Itacolomís um em cima do outro, só prá comparar. Piscinas de
àguas cristalinas, a bicharada, Curicacas, Seriemas, Gralhas Azuis,
azuis mesmo, Cervos, Graxains, Gambás, serpentes e quartzo prá todo lado além
das marcas do tempo, das enchentes e dos milhões de anos que se passaram para
que deus houvesse criado e desenvolvido tudo aquilo.
Foi fascinante!!!! Eu queria e quero sempre poder voltar!!!!!
Como a vida dá voltas fui me relacionando com novas pessoas, grupos e
interesses. O Gustavo Mariotto foi um destes. É uma pessoa excelente que
muito me ajudou em vários trabalhos e conquistas no Malacara e
Fortaleza. Fizemos vários trabalhos casca mesmo, conduzindo grupos sob
enxurradas repentinas dentro de cânions ou em outras ocasiões realizando
incursões punks, muitas vezes com pouco dinheiro e pouco material, a fim
de conhecer e traçar novos caminhos para diversão aprimoramento e trabalho.
Depois vieram outros monstrões me incomodar; Rafael Britto e Henry Lummertz
se aproximaram e com eles iniciou-se a idéia de, junto a criação de uma
entidade de canionismo, a Associação dos Cânions da Serra Geral, buscar algo
cada vez mais sério e regrado, com disposições que buscassem
o desenvolvimento e a prática do canionismo de forma mais segura e orientada.
Realizamos juntos o curso da FFS que é a Federação Francesa de Espeleologia
e Canionismo (FFS) com um trabalho bastante extenso de mais de dois anos de
atividades e formação até o exame num curso lecionado pelo senhor Patrick
Gimmat numa parceria franco brasileira. Formamo-nos Monitores e fizemo-nos
grandes amigos.
Devo muito respeito a estes canionistas com os quais muito me divirto e
aprendo e que aparecem por aí em cânyons por toda a parte do Brasil e
do mundo
AGM: Como surgiu a idéia de trabalhar também com o esporte (loja, cursos, etc)?
NR: A jogada de
trabalhar com equipos e pessoas veio por necessidade pura e simples.
Aqui no estado não havia nenhuma empresa que trabalhasse com equipos ou
atividades mais " radicais" em ambientes naturais como era a nossa proposta.
Daí a idéia.
Em 1990 Viajamos eu e o Àtila por lojas em outros estados e batalhamos
algumas representações de mochilas e calçados. Na volta criamos a "ENTREFENDA",
uma empresa que tinha o objetivo de conduzir pessoas pelo interior dos
cânyons além de produzir e revender equipamentos específicos para a área de
esportes de montanha e escalada.
Feliz ou infelizmente nossa sociedade não durou muito e logo se dissolveu
dando lugar a Montanha Equipamentos, uma empresa individual com uma proposta
mais aberta, trabalhando com numa visão mais abrangente e madura do mercado.
Uma das salas da loja foi transformada logo de início em muro de escalada,
com fenda, teto e tudo o mais. Foi uma fase muito legal em que a garotada
freqüentava e treinava direto, o que era bastante divertido.
Depois que realizei a formação junto a escola da FFS comecei a lecionar
cursos de Técnicas Verticais e travessias de cânyons. Com a loja crescendo o
espaço foi sendo tomado pelo material. Outros muros foram se colocando pela
cidade e então o muro foi dando lugar aos mosquetões, mochilas e cordas.
AGM: Em que aspectos essas atividades se relacionam? E na sua vida?
NR: Penso que a similaridade de alguns equipamentos e técnicas, a
busca pelo ambiente natural e a grande quantidade de conhecimentos exigida
faz com que os esportes de montanha se relacionem. Muitas vezes intentos mais
severos transformam-se em jogos de paciência nos quais se exercitam o bom
senso, a calma e a inteligência. Há muito que se respeitar. As dificuldades
nem sempre são previsíveis e é preciso aprender até isto mesmo; prever o
imprevisível. As forças da natureza, as intempéries, as temperaturas tudo
pode se transformar em risco evidente. Todos nós, de uma ou outra forma,
precisamos administrar nossas vidas e da mesma maneira penso que as
montanhas, cânyons e cavernas despertam nosso interesse.
Não basta ir até onde todos vão. Sempre acabamos desejando ir mais a frente,
mais fundo, mais alto, mais distante, mais difícil. Onde poucos chegaram, ou
onde ninguém jamais foi. A mim também agrada muito trabalhar o planejamento
e a logística. Gosto de realizar estudos de lugares nas cartas topográficas
em fotos de satélite e em programas como o Google Earth que trouxeram uma
série de vantagens e novas possibilidades para todos os inquietos.
Todo mundo gosta de juntar as tralhas e botar o pé na estrada para se
divertir, fazer novos amigos e conhecer novos lugares. Na minha vida é isto
quase que diariamente, estou sempre procurando bolar alguma indiada prá
realizar, novos intentos, objetivos, cânyons, viagens e expedições. Conheço
novas pessoas, ensino um pouco do que aprendi e com elas aprendo bastante,
sobre de tudo um pouco. Isto é muito bom.
Graças a Deus trabalho no que gosto, e muuuuuito.
AGM: Você tem acompanhado muitos escaladores iniciantes, que aparecem
procurando cursos ou equipamentos. Na sua opinião, pq a maioria perde a
motivação nos primeiros meses?
NR: Penso que todos os mais experientes poderiam ajudar os iniciantes
trabalhando durante mais tempo vias que estivessem ao alcance da capacidade
destes indivíduos. É importante lembrar que no começo as escaladas chegavam a
algum lugar ou levavam as pessoas a, com o auxílio de técnicas e
equipamentos, alcançar um determinado espaço onde somente com estes
subterfúgios poderia se chegar.
Com a tendência esportiva das escaladas a exigência técnica, psicológica e
física torno-se obrigatória o que não se conquista em pouco tempo, nem
tampouco sem um acompanhamento e uma preparação específica ao biotipo e a
cabeça de cada um. Talvez seja este um dos motivos mais fortes.
AGM: Como você vê o montanhismo do RS hoje? Quais as perspectivas de futuro?
NR:
Vejo
o Montanhismo no RS com bons olhos, a gauchada é muito crítica e
perfeccionista, fato que provavelmente nos coloca meio diferenciados dos
outros estados em relação a organização de associações e grupos. Já tivemos
e temos representantes do nosso estado escrevendo história na escalada em
campeonatos brasileiros e vias de elevadas dificuldades no Brasil e no
exterior. O Naoki Arima o Thiago Balen e o Guilherme Zavaschi são exemplos do
potencial de nossos escaladores...
Podemos acreditar, e acredito, que temos um futuro brilhante nestas áreas. Os
grupos hoje são mais homogêneos e organizados e a informação que se passa aos
iniciantes é de alta qualidade. Nosso histórico de malogros é quase que
irrelevante, mas importante o que aponta num caminho que só tende a melhorar
dia a dia. Hoje o trabalho da AGM é notório e através desta associação muitas
pessoas podem se engajar nas atividades com informação e encaminhamento
confiável e comprometido, fornecidos por pessoas que dedicam o coração a
palavra e a mente ao esporte.
Porto Alegre,
24 de outubro de 2007.
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